Reunidos em Arapongas, um dos maiores polos moveleiros da América Latina, nos dias 15 e 16 de julho de 2026, trabalhadores e trabalhadoras, dirigentes sindicais e representantes das entidades do setor moveleiro de todas as regiões do Brasil, participantes do 28º Encontro Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras Moveleiros(as), aprovamos a presente Carta de Arapongas, como manifestação da unidade nacional da categoria e compromisso permanente com a defesa do trabalho decente, da liberdade sindical, da negociação coletiva e de uma indústria moveleira socialmente justa, ambientalmente responsável e economicamente forte.
Vivemos um período de profundas transformações na economia mundial. A reorganização das cadeias globais de produção, as disputas geopolíticas, a digitalização da indústria, a incorporação da inteligência artificial, a automação dos processos produtivos e as novas exigências ambientais alteram a forma de produzir e distribuir riqueza. Entretanto, permanece inalterada uma verdade histórica: toda riqueza produzida pela indústria moveleira nasce do trabalho humano.
São os trabalhadores e as trabalhadoras que transformam madeira, painéis, aço, vidro, tecidos e tecnologia em móveis que equipam lares, escolas, hospitais, empresas e espaços públicos. Nenhuma máquina substitui a inteligência coletiva, a experiência profissional, a criatividade e a dedicação daqueles que movimentam a produção brasileira.
Por isso, afirmamos que não aceitaremos que os custos da competição internacional, da inovação tecnológica ou da reorganização produtiva sejam transferidos aos trabalhadores por meio da redução de direitos, da precarização do emprego ou do enfraquecimento da organização sindical.
O setor moveleiro brasileiro constitui patrimônio estratégico da indústria nacional. Gera centenas de milhares de empregos, movimenta uma ampla cadeia produtiva e contribui para o desenvolvimento regional de dezenas de municípios brasileiros. Essa importância econômica impõe igualmente uma responsabilidade social: crescimento econômico deve significar empregos de qualidade, salários dignos, ambientes de trabalho seguros e distribuição dos ganhos de produtividade.
Durante este Encontro, analisamos a conjuntura nacional e internacional, o mercado da madeira e do mobiliário, os desafios da negociação coletiva, os impactos da terceirização e da pejotização, a realidade da saúde e segurança nas fábricas, a exposição dos trabalhadores aos agentes químicos e às poeiras de madeira, a sustentabilidade da cadeia florestal e as experiências internacionais do movimento sindical.
Esses debates reforçaram nossa convicção de que somente sindicatos fortes, representativos e organizados poderão assegurar que a modernização da indústria caminhe lado a lado com a valorização do trabalho.
O TRABALHO DEVE ESTAR NO CENTRO DO DESENVOLVIMENTO.
Reafirmamos que desenvolvimento econômico e justiça social são objetivos inseparáveis.
Não existe indústria moderna construída sobre salários insuficientes, jornadas exaustivas, acidentes de trabalho, discriminação ou perseguição sindical.
Não existe competitividade legítima quando ela decorre da transferência dos riscos econômicos para quem vive do próprio trabalho ou em: decorrência de monopólios que desequilibram o mercado do setor.
Não existe sustentabilidade enquanto trabalhadores adoecem, sofrem acidentes ou têm seus direitos reduzidos. A indústria moveleira brasileira somente será verdadeiramente competitiva quando combinar
investimentos em inovação tecnológica, qualificação profissional, responsabilidade ambiental e valorização permanente do trabalho humano.
LIBERDADE SINDICAL E NEGOCIAÇÃO COLETIVA
A liberdade sindical constitui condição indispensável para a democracia e para relações de trabalho equilibradas.
Reafirmamos nosso compromisso com os princípios fundamentais da Organização Internacional do Trabalho e defendemos o pleno respeito à liberdade de organização sindical, ao direito de negociação coletiva e à proteção contra práticas antissindicais.
Repudiamos qualquer forma de perseguição a dirigentes sindicais, representantes eleitos, membros da CIPA ou trabalhadores que exerçam legitimamente seus direitos de organização coletiva.
A negociação coletiva permanece sendo o mais importante instrumento democrático de distribuição da riqueza produzida, solução de conflitos, promoção da igualdade e construção de condições dignas de trabalho.
Nenhum acordo individual poderá substituir o diálogo coletivo organizado entre trabalhadores e empregadores.
CONTRA A PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO
O movimento sindical moveleiro brasileiro rejeita todas as formas de precarização das relações de trabalho. Combatemos: a pejotização fraudulenta; a terceirização utilizada para reduzir direitos; a informalidade e a rotatividade excessiva; a todas as formas de assédio; a discriminação racial, étnica, religiosa e de gênero; as dispensas discriminatórias; o uso abusivo de contratos precários; a fragmentação das categorias profissionais; qualquer prática destinada a enfraquecer a representação sindical.
A modernização produtiva não pode servir como justificativa para retirar direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora.
SAÚDE, SEGURANÇA E DIREITO À VIDA
A vida vale mais do que qualquer índice de produtividade. Nenhum móvel produzido, nenhuma meta de produção, nenhum contrato de exportação e nenhum resultado financeiro justificam acidentes, mutilações, doenças ocupacionais ou mortes.
A realidade das fábricas do setor moveleiro exige permanente vigilância quanto à exposição a poeiras de madeira, agentes químicos, solventes, adesivos, ruído, máquinas de corte, equipamentos automatizados e fatores ergonômicos.
Defendemos a plena implementação das Normas Regulamentadoras, especialmente aquelas relacionadas à gestão dos riscos ocupacionais, à proteção de máquinas, à ergonomia e ao controle da exposição química.
Exigimos que toda inovação tecnológica seja acompanhada da eliminação dos riscos ocupacionais, da qualificação permanente dos trabalhadores e da efetiva participação sindical na implementação das mudanças organizacionais.
TRANSIÇÃO JUSTA E RESPONSABILIDADE NAS CADEIAS PRODUTIVAS
A sustentabilidade ambiental somente terá legitimidade quando acompanhada de sustentabilidade social.
Apoiamos políticas de manejo florestal responsável, certificação ambiental, economia de baixo carbono e inovação industrial.
Entretanto, afirmamos que não existe madeira sustentável produzida mediante trabalho precário.
As empresas líderes da cadeia moveleira devem assumir responsabilidade por toda sua cadeia produtiva, garantindo respeito aos direitos humanos do trabalho entre fornecedores, terceirizadas, transportadoras e prestadores de serviços.
Defendemos mecanismos de devida diligência empresarial que assegurem transparência, rastreabilidade e responsabilidade social em toda a cadeia de produção.
TECNOLOGIA A SERVIÇO DO TRABALHADOR
A inteligência artificial, a automação e a digitalização representam oportunidades para reduzir a penosidade do trabalho, elevar a produtividade e ampliar a qualidade dos produtos.
Todavia, tais transformações deverão ocorrer mediante negociação coletiva, transparência, qualificação profissional e distribuição dos ganhos econômicos produzidos pelas novas tecnologias.
Não aceitaremos que a inovação tecnológica seja utilizada para ampliar desigualdades, intensificar ritmos de trabalho ou eliminar empregos de forma indiscriminada.
IGUALDADE E RENOVAÇÃO SINDICAL
Assumimos o compromisso de fortalecer um movimento sindical plural, democrático e representativo.
Ampliaremos a participação de mulheres, jovens, pessoas negras, pessoas com deficiência e demais grupos historicamente sub-representados nas estruturas sindicais, promovendo igualdade de oportunidades, combate ao assédio, enfrentamento à violência e valorização da diversidade.
O futuro do sindicalismo moveleiro depende da formação permanente de novas lideranças comprometidas com a democracia, a solidariedade internacional e os direitos da classe trabalhadora.
UNIDADE NACIONAL E SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL
Os desafios enfrentados pelos trabalhadores da indústria moveleira ultrapassam fronteiras nacionais. Por essa razão, reafirmamos nosso compromisso com a cooperação entre sindicatos brasileiros e organizações internacionais do setor madeira e construção, fortalecendo campanhas comuns pela liberdade sindical, pelo trabalho decente, pela negociação coletiva, pela saúde e segurança e pela responsabilização das empresas transnacionais ao longo das cadeias globais de produção.
A solidariedade internacional constitui patrimônio histórico da classe trabalhadora e instrumento indispensável para enfrentar os desafios do capitalismo contemporâneo.
COMPROMISSOS DE ARAPONGAS
As entidades signatárias assumem o compromisso de:
– fortalecer a organização sindical em todos os polos moveleiros do país;
– ampliar a presença sindical nos locais de trabalho;
– construir uma coordenação nacional permanente do setor;
– compartilhar experiências negociais entre sindicatos;
– incorporar estas diretrizes às campanhas salariais e negociações coletivas;
– mobilizar os trabalhadores do setor, para garantir a aprovação em 2026 da PEC que altera a escala de trabalho 6×1 (PEC 221/2019) e reduz a jornada de trabalho em tramitação no Senado Federal;
– desenvolver programas permanentes de formação sindical;
– intensificar a cooperação internacional;
– acompanhar coletivamente conflitos, acidentes graves, demissões em massa e práticas antissindicais;
– defender políticas públicas de fortalecimento da indústria moveleira nacional com geração de empregos de qualidade.
MANIFESTO FINAL
Da cidade de Arapongas dirigimos nossa voz a todos os trabalhadores e trabalhadoras da indústria moveleira do Brasil.
Reafirmamos que o futuro do setor não será construído apenas pela inovação tecnológica, pela expansão das exportações ou pelo crescimento dos mercados.
O verdadeiro desenvolvimento exige distribuição da riqueza, valorização do trabalho, negociação coletiva forte, liberdade sindical, igualdade de oportunidades e respeito incondicional à dignidade humana.
Chamamos todos os sindicatos, federações, confederações, centrais sindicais e organizações internacionais comprometidas com o trabalho decente a fortalecerem a unidade dos trabalhadores da madeira e do mobiliário.
Porque são as mãos e as mentes dos trabalhadores que constroem a riqueza da indústria. Porque são os sindicatos que transformam essa riqueza em direitos.
E porque somente a organização coletiva será capaz de construir um futuro em que desenvolvimento econômico e justiça social caminhem juntos.
Nenhum direito a menos!
Mais organização, mais negociação coletiva, mais democracia sindical!
Viva os trabalhadores e trabalhadoras da indústria moveleira brasileira!
Viva a unidade da classe trabalhadora!
A CARTA DE ARAPONGAS É ASSINADA POR DEZENAS DE SINDICATOS E FEDERAÇÕES DE TRABALHADORES DO SETOR MOVELEIRO DE TODO PAÍS
Fonte: CONTRICOM